A arquitetura pelas lentes da fotografia

Luzes, cores, formas, ângulos e composições. A arquitetura e a fotografia são duas artes que se conectam desde os seus princípios mais básicos. Hoje, a fotografia se encontra a favor do arquiteto e da arquitetura como forma essencial de representação e fonte imprescindível para seus meios de divulgação, sejam sites, blogs, portfólios ou revistas impressas. Mas, além disso, a fotografia tornou-se parte do processo criativo da arquitetura, servindo desde fonte de inspiração até instrumento transmissor da essência do projeto que o arquiteto deseja passar para o mundo.

Apesar de não substituir as experiências físicas reais nos ambientes construídos, a fotografia permite uma ampliação imensurável do conhecimento de obras arquitetônicas, possibilitando experiências às pessoas, mesmo que apenas visuais, de obras que talvez nunca possam conhecer pessoalmente. A fotografia torna a arquitetura de uma cidade acessível à todas as outras.

Mas, mais do que transmitir apenas imagens, a fotografia consegue representar o conceito do projeto e mostrar aspectos estéticos e técnicos, que vão desde o processo construtivo até a obra finalizada, para os olhares atentos de outros profissionais. E ainda transmitir a beleza das cenas e as sensações dos ambientes levando o entendimento da obra para todo o público.

A arquitetura está em constante transformação, seja pelos efeitos do clima e da luz ou pela ação dos usuários e consequentes desgastes. Em contrapartida, a fotografia tem o fascinante poder de congelar a arquitetura no tempo, de registrar determinada obra em um específico instante.

Jeremy Till elabora no livro “Architecture depends”

“A fotografia permite que esqueçamos o que veio antes (o sofrimento do trabalho prolongado para cumprir com a entrega de um edifício completamente formado) e o que está por vir depois (as intempéries do tempo, sujeira, usuários, reformas). Ela congela o tempo. A fotografia de arquitetura ‘eleva o edifício para fora do tempo’ e proporciona um consolo para os arquitetos que podem sonhar por um momento que a arquitetura é um poder estável existente por sobre as marés do tempo”.

Uma boa fotografia é resultado de um trabalho de muita paciência, de um olhar sensível à luz, ângulos e condições naturais. O português Fernando Guerra, renomado fotógrafo de arquitetura, comentou em uma entrevista à revista Arq&Design:

“Uma das mais importantes qualidades de um fotógrafo de arquitetura é saber esperar. A luz desenha novos enquadramentos durante o dia e mais do que a busca, prefiro dizer, a espera dessa luz é essencial.”.

O fotógrafo também precisa saber captar a essência e o contexto do projeto, seja seu entorno, os usuários ou sua funcionalidade, fatores que dão vida e realismo à obra.

“Assento meu trabalho em fotografias que tiram partido de quem passa, do que acontece naquela rua ou naquela casa. […] A pessoa que passa, o carro certo ou a nuvem certa são elementos que gosto de adicionar ao que fotografo. Adicionam escala, mas acima de tudo dão-lhe sentido e fazem a ponte para o meu trabalho pessoal que sempre procurou esses elementos.”,

O fotógrafo absorve o que está presenciando para então ressaltar os aspectos principais e reapresentar esta arquitetura. A fotografia de arquitetura é uma arte que é releitura de outra.

Texto de Waléria Corrêa

Fotos: Fernando Guerra e Lio Simas