Onde trabalha você?

Sempre me encantou conhecer as pessoas através dos espaços em que elas vivem, e não apenas a decoração de onde elas moram. Lufe Gomes

 

O projeto do fotógrafo Lufe Gomes, compilado no livro Onde Vive Você, nos traz pelo olhar sensível e humano de Lufe as sensações e emoções das casas de seus personagens. As fotos transmitem cheiros, sons, sentimentos e afeto, e nos transportam para dentro desses cenários ricos em vida.

Cada casa reflete a personalidade e a história de vida de cada morador. São como templos de registros marcados pela rica passagem do tempo e histórias únicas de seus donos. Contam aventuras, revelam viagens fantásticas, lutas diárias, gostos banais. Além disso traz à tona uma das principais características para que a arquitetura tenha algum sentido: Pessoas.

Inspirado pelo trabalho do Lufe surge a pergunta Onde Trabalha Você?

Assim como nossas casas, nossos locais de trabalho dizem muito sobre nosso estilo de vida e influenciam diretamente nosso dia-a-dia e a vida das empresas. Seria pretensioso destrinchar todos os locais de trabalho que existem nesse mundo real/virtual, então o foco é sobre como a combinação de arquitetura mais pessoas pode gerar locais de trabalho agradáveis para colaboradores e clientes e influenciar positivamente a vida de cada um.

Meu primeiro contato com esse assunto foi quando ainda achava que seria administrador ao invés de arquiteto urbanista. Em alguma das muitas aulas da faculdade o exercício da semana era imaginar o layout de uma pequena empresa. Lembro de pensar, mas isso não é tarefa de arquiteto? Desde lá compreendi que arquitetura e os espaços de trabalho são dissociáveis. Não importa onde se trabalhe, o espaço vai influenciar seu trabalho e suas relações sociais. Fordismo, Toyotismo, Volvismo e mais várias correntes de pensamento da teoria da administração tem de algum modo relação com o espaço e como ele pode influenciar diretamente na produção.

A influência da arquitetura nos espaços de trabalho, contudo, se expande para além dos meios de produção, do chão de fábrica. Escritórios talvez sejam os espaços mais modificados nas últimas décadas, reflexo da revolução tecnológica e de novos modelos de hierarquia organizacional.

                                                                                                                                               Fonte: https://imgur.com/gallery/5Y7AKpi

Os cubículos da década de 70 hoje dão espaço para a expansão dos coworkings com seus amplos espaços compartilhados, zonas de descompressão e integração social. O mundo se tornou o escritório dos millenials e centennials. O pequeno espaço enclausurado se expandiu e dissolveu fronteiras. Além disso a competição no setor de serviços revela uma importância cada vez maior da arquitetura como variável a se considerar na concepção de uma empresa. Locais bem projetados podem influenciar clientes e frequentadores, gerar avaliações positivas ou negativas, fidelizar clientes, induzir comportamentos e ser um dos responsáveis pelo sucesso ou fracasso de um estabelecimento.

Bullhorn HQ Cafe, Boston. Foto: Robert Benson

Palo Alto Networks games, Plano. Foto: Thomas McConnell

 

Como arquitetura influencia na prática os espaços corporativos e comerciais:

Eu viajei para o meu destino através de uma arquitetura de miséria. O clima no metrô é solene e brusco. As pessoas sentam-se sozinhas, respiram o ar subterrâneo, sob luz fluorescente, sem conversar umas com as outras, olhando para o chão, os pés, os livros. Produzir ansiedade é o maior talento do seu espaço. Sarah Thompson em The Globe and Mail

 

Espaço e arquitetura são realmente uma divisão da saúde mental. Alain de Botton, autor de A Arquitetura da Felicidade, em conversa com Sarah Thompson.

Diversos fatores da arquitetura podem influenciar no sucesso do seu negócio, na produtividade da sua empresa e principalmente na felicidade dos seus clientes e das pessoas que trabalham na empresa.

As cores quando usadas com propósito podem influenciar a criatividade ou gerar ambientes intimistas. A diferença na cor da iluminação pode proporcionar ambientes convidativos a um jantar prolongado ou a uma tarde produtiva no escritório. A luz natural é intimamente ligada ao bem estar e a saúde dos espaços.

O tratamento acústico adequado influencia diretamente na qualidade do ambiente, permitindo que clientes fiquem mais ou menos tempo em um determinado lugar.

O maior erro que os projetistas cometem é não colocar os usuários no centro. Um arquiteto comum vai considerar as necessidades básicas das pessoas usando o espaço, como quantas mesas de trabalho são necessárias no escritório. Mas um bom arquiteto vai pensar no clima da área em que o edifício está localizado, como as pessoas podem ser suscetíveis a doenças e quão visíveis elas são para os outros. Por exemplo, muitos grandes edifícios de escritórios nas cidades não permitem que as pessoas abram as janelas, mas se eles não puderem controlar a temperatura, eles podem acabar efetivamente em uma estufa! Um estudo conduzido pelos pesquisadores de mercado do Reino Unido, Ipsos, revelou recentemente que um terço dos funcionários não está feliz em seu ambiente de escritório, 45% disse que a temperatura era “desconfortável” e 32% disseram que a iluminação era ruim. Enquanto isso, um estudo separado descobriu que 35% dos funcionários sentem que seu ambiente de trabalho era a maior causa de estresse relacionado ao trabalho. Guzmán de Yarza Blache

A importância da arquitetura dos espaços que habitamos se revela cada vez como variável fundamental no sucesso de negócios bem como na felicidade das pessoas que habitam esses espaços. Mais do que proporcionar espaços “bonitos” o design e a arquitetura influenciam diretamente em aspectos mentais e são capazes de influenciar positivamente ou negativamente nossas vidas. Ainda assim, com todos os aspectos positivos que um bom projeto pode trazer aos negócios nem todas as empresas fazem esse investimento.

A arquitetura é considerada um luxo. A boa arquitetura tem dificuldade em defender seu papel. Alain de Botton, autor de A Arquitetura da Felicidade, em conversa com Sarah Thompson.


Ruby Receptionist, Portland. Foto: Josh Partee

Nos resta responder a pergunta: Qual arquitetura queremos para nossos negócios? Uma que possa trazer resultados e influenciar positivamente na nossa felicidade? Ou uma que gere ansiedade e afaste clientes e parceiros?